Research Seminar

Seminário Permanente «A Emoção em Questão»: Ana Leonor Santos e David Geraldes Santos

On Wednesday, May 27, 2020

 

O interesse da filosofia pelas emoções, pelos sentimentos ou pelas paixões foi quase sempre justificado pelo tipo de relações que estas noções podem ter com a ideia de razão, e não como algo portador de um valor autónomo e de um sentido intrínseco. Independentemente do modo com a tradição filosófica moderna definiu e interpretou o significado destes três termos, distinguindo, por exemplo, a emoção como um sentimento breve e abrupto, o sentimento como uma experiência consciente e a paixão como um sentimento intenso, a verdade é que no vocabulário filosófico moderno a reflexão sobre as emoções, quer estas sejam designadas como paixões (Descartes), afectos (Espinosa) ou sentimentos (Adam Smith), fez-se quase sempre no quadro de uma antinomia com a razão. Seja como for, no espectro epistemológico com que a modernidade tratou a emoção, apesar de tudo plural e matizado, prevalece a ideia de que um indivíduo ou uma pessoa com carácter e sensibilidade moral reage afectivamente diante das imoralidades e das violações das regras morais básicas. Esta capacidade de intensificar e de subjectivar de modo adequado os afectos comuns, ou os afectos propriamente políticos, faz parte da nossa herança genética mais louvável. Na verdade, a utopia ou a ficção racionalista de um indivíduo completamente livre de emoções porque as conseguiu conjurar e porque se conseguiu livrar daquelas que mais o perturbam e confundem é eventualmente uma hipótese academicamente admissível, em todo o caso um tal indivíduo nunca poderá ser uma criatura integralmente humana e suficientemente empírica, uma vez que, posto nessa condição, escaparia àquela «vulnerabilidade» (Martha Nussbaum) essencial que nos constitui e que define a potência de sociabilidade dos indivíduos. Com efeito, um cidadão completamente apático ou incapaz de afectos morais adequados será sempre uma espécie de contradição política nos termos, uma vez que não será nunca capaz de se apaixonar civicamente por aquilo em que alega acreditar. A desejabilidade ética de um equilíbrio político das emoções, ainda que este seja necessariamente instável e por natureza frágil, não resulta de uma imposição ou de uma repressão tirânica da razão sobre a emoção. Ao invés, utilizamos a razão, não para aniquilar ou rasurar, tout court, as emoções, mas para as transformar, orientar e aplicar, para assim podermos modificar e variar os comportamentos que delas resultam, para, em suma, darmos significado – e significado político em primeiro lugar – à acção. No século XX, a filósofa Hannah Arendt formulou com equilíbrio e escrúpulo esta capacidade do ser humano em ser afectado quando vê ofendido e humilhado o seu sentimento de justiça e de decência humanas: «A ausência de emoções não causa nem promove a racionalidade. Para reagirmos razoavelmente perante uma ‘tragédia insuportável’ temos de começar por nos sentir ‘afectados’, e o que aqui se opõe ao emocional não é o ‘racional’, qualquer que seja o sentido que se lhe dê, mas antes, uma de duas coisas: ou a incapacidade de nos sentirmos afectados, que é, em geral, um fenómeno patológico, ou o sentimentalismo, que é uma perversão do sentimento».

17h30

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